O custo Brasil

Para Pascal Lamy, a instabilidade política brasileira deverá dificultar a atração de investimentos no país nesse período de crise global. Por Daniela Fernandes, para o Valor, de Paris

Ex-comissário europeu do Comércio e diretor-geral da Organização Mun- dial do Comércio (OMC) de 2005 a 2013, o francês Pascal Lamy mantém uma intensa agenda de atividades internacio- nais, que o leva normalmente a percorrer o planeta: 600 mil km anuais, segundo ele, que afirma comprar os créditos de carbono cor- respondentes. O confinamento decretado na França entre meados de março e de maio para combater a covid-19 marcou uma mudança radical em sua rotina. “Passei de uma vida glo- bal e presencial a uma vida monacal e digital.”

O clima de monastério, como ele diz, na casa de campo da família na Normandia, no Norte da França, onde está desde março, não o impediu de trabalhar 11h por dia partici- pando de discussões pela internet com espe- cialistas de todos os continentes sobre temas variados. Ainda sobrou tempo para 1h30 de ginástica diariamente. Lamy afirma exercer nada menos do que duas dezenas de funções. Entre elas, a de presidente do Fórum de Paris para a Paz. Lançado em 2008, esse evento in- ternacional tenta reorganizar o multilateralismo, “que anda cansado”, diz ele. O próxi- mo encontro será em novembro em Paris.

Para o ex-diretor-geral da OMC, o mundo pós-covid-19 será mais polarizado. Na sua avaliação, a atual pandemia vai diversificar a globalização, além de acelerar a transição pa- ra o digital e a passagem do protecionismo co- mercial para o que ele denomina “precaucio- nismo”. A instabilidade política no Brasil de- verá dificultar a atração de investimentos no país nesse período de crise global. Lamy afir- ma ainda que o acordo Mercosul-União Euro- peia não deve ser ratificado, no momento, por razões ligadas à política ambiental do Brasil.

A seguir, trechos da entrevista:

Valor: O chanceler francês, Jean-Yves Le Drian, declarou temer que o mundo pós-covid-19 “se pa- reça muito com o de antes, mas em versão piora- da”. O senhor concorda?

Pascal Lamy: Concordo. O mundo pós-co- vid-19 será, pelo menos durante algum tempo, mais fragmentado, polarizado e dividido por vários motivos que foram reforçados pela crise. É verdade que o multilateralismo já não estava em boa forma. O Fórum de Paris para a Paz que presido é uma tentativa de encontrar nova via para reorganizar o multilateralismo.

Valor: Em seu livro “Onde Vai o Mundo?”, pu- blicado em 2017, o senhor previu os aspectos ne- gativos da globalização, que vêm se acentuando.

Em vez de maior convergência e ações mundiais coordenadas para enfrentar crises, o mundo pós-pandemia terá menos cooperação interna- cional e mais interesses nacionais e identitários?

Lamy: É exatamente isso. O problema não é, primeiramente, a globalização, apesar de suas vantagens e inconvenientes, como sem- pre destaquei. A globalização precisa ser con- trolada. Acho que a crise da covid-19 tem pou- co a ver com a globalização em si. O problema principal é a incapacidade dos Estados de or- ganizá-la corretamente por meio de uma coo- peração internacional, cujas instituições da- tam do fim da Segunda Guerra (1939-1945) e não foram repensadas desde então.

Valor: A decisão dos EUA de suspender sua con- tribuição à Organização Mundial da Saúde (OMS) em plena pandemia é o exemplo mais recente dos questionamentos em relação ao multilateralismo, também feitos pelo governo brasileiro. O mundo te- rá cada vez mais apenas acordos bilaterais?

Lamy: Acredito que não. Acho que nunca ti- vemos de escolher entre o unilateral, o bilateral, o regional e o multilateral. Isso depende do te- ma. Há inúmeras abordagens, plurilaterais. Não penso que exista um modelo único, que se- ja multilateral. Inventei um termo há alguns anos que é o “polilateralismo”. O multilateralis- mo deve evoluir, e uma das grandes evoluções consiste em diversificar a participação na ges- tão das grandes questões globais.

Valor: De que forma isso pode ser feito?

Lamy: Penso que o monopólio da organiza- ção da globalização não deve ser deixado aos Estados soberanos. É preciso incluir outros ato- res, como algumas grandes cidades, organiza- ções não governamentais, empresas e institui- ções acadêmicas. É o princípio do Fórum de Pa- ris para a Paz. Nos interessamos pelas mesmas questões globais que a Assembleia Geral das Nações Unidas e o Conselho de Segurança, mas fazemos de forma mais diversificada, com obje- tivos precisos nas áreas de educação, cultura, tecnologia e desenvolvimento. Dessa forma, ta- pamos os buracos de um multilateralismo que anda efetivamente cansado. Primeiro porque é antigo. É possível entender que os países emer- gentes não encontrem seu lugar ou suas ideias em um sistema que foi concebido em 1944. Por outro lado, o multilateralismo sofre choques, como os de Donald Trump ou de Jair Bolsonaro, que são choques extraordinários. São eventos que ficam fora da evolução a longo prazo dos países em direção ao desenvolvimento e à de- mocracia. A partir do momento em que Trump considera que as organizações internacionais que seus predecessores ajudaram a criar são desfavoráveis aos interesses americanos, temos um problema teórico gigantesco.

Valor: As críticas dos EUA contra a OMS se in- serem nesse contexto?

Lamy: No caso da OMS, trata-se evidente- mente de outra coisa. Isso se insere em uma filo- sofia de desglobalização, de críticas e de saída do multilateralismo por razões ideológicas que lhe são específicas, inclusive em relação ao uso do protecionismo, que nunca havia chegado a esse ponto nos EUA. Mas sabemos que quando Trump ataca a OMS é para desviar a atenção do medíocre desempenho americano na gestão da crise do coronavírus, que não corresponde aos meios econômicos e ao nível de vida desse país.

Valor: O chanceler brasileiro, em uma reunião de ministros exibida após uma decisão da Justi- ça, expressou a vontade de que o Brasil, no mun- do pós-covid 19, faça parte de um novo Conselho de Segurança no qual o país poderia influenciar uma nova ordem mundial e o que seria uma nova globalização. Além da dimensão econômica, ela levaria em conta valores e a liberdade. Qual é a sua avaliação sobre isso?

Lamy: [Risos] Não vou responder sobre o caso brasileiro porque a ideia de que seria bom generalizar a todo o planeta os valores do senhor Bolsonaro é uma proposta que não acho sedutora. Mas, em relação à questão ge- ral, é uma boa ideia revisar o multilateralis- mo. Em seminários que tenho participado, propus a criação de conselho de resiliência global, que seria um conselho de segurança no sentido amplo do termo e que poderia ad- ministrar, de forma conjunta, os riscos ambientais, que devem ser prioritários. Na realidade, retomei uma ideia de Jacques Delors [presidente da Comissão Europeia de 1985 a 1995], meu mentor, que nos anos 90 defen- deu a criação de um Conselho de Segurança econômico que completaria o Conselho de Segurança da ONU com algo equivalente.

Valor: A pandemia expôs a dependência do Ocidente em relação à China na área de produtos médicos. Países como a França e os EUA ressalta- ram a necessidade de ter uma produção local em setores estratégicos, como a saúde. O presidente francês, Emmanuel Macron, alertou que a Euro- pa precisa reforçar sua soberania econômica e industrial. A globalização vai dar marcha a ré?

Lamy: Não acredito que haverá desglobaliza- ção. Constato que a crise da covid-19 revelou a fragilidade de certas cadeias logísticas. Mas ain- da é preciso medir essa fragilidade. O que é exa- tamente uma cadeia de suprimentos frágil? É a cujo elo mais fraco está situado em um lugar onde não deveria estar? É ser muito dependen- te de uma cadeia, enquanto se tivéssemos duas ou três o risco seria menor? Há um discurso muito volumoso sobre essa questão de repa- triação de empresas, de retorno da produção nacional em alguns setores. Mas o que isso sig- nifica e qual é a solução? Seria, por exemplo, re- criar estoques estratégicos, como ocorreu nos anos 70 e 80 nas crises do petróleo? Poderíamos ter estoques estratégicos de 90 dias de máscaras e equipamentos de proteção individual ou de tal medicamento. Isso não é desglobalização. É uma revisão do fluxo contínuo de produção.

Valor: A reinstalação em países ricos de fábri- cas que estão na Ásia é viável?

Lamy: Isso ocorrerá em setores, de maneira marginal na comparação com o que representa a multilocalização de processos produtivos [fragmentação mundial das diferentes etapas produtivas]. Dependerá do que os países consi- deram setor estratégico. Se isso for feito, os pro- dutos vão custar mais caro. Se essas cadeias pro- dutivas se desenvolveram é porque são eficien- tes e, por consequência, pouco onerosas. Mas nada impede que durante esse período outras revoluções, principalmente tecnológicas, pos- sam levar a mais globalização. A crise da co- vid-19 acelerou a transição para o digital, favo- receu a internacionalização das cadeias de pro- dução de serviços. Pode-se repatriar a produção de um medicamento, mas a telemedicina, por exemplo, vai se desenvolver de maneira bem mais multilocalizada do que antes. Haverá evo- luções em vários sentidos. Por isso, acho exces- sivo falar em desglobalização. Vejo como re- configuração, diversificação da globalização. O capitalismo pós-covid-19 será mais resiliente e menos eficiente, se a distribuição da produção for remanejada e menos globalizada.

Valor: Até onde pode chegar a disputa entre os EUA e a China, que ganha um novo capítulo na crise sanitária? Ela pode resultar em uma guerra fria, com desdobramentos militares?

Lamy: Não sou especialista em questões de segurança, mas é certo que é sempre perigoso quando há mais tensões. Não acredito que es- tejamos às vésperas de uma deflagração mili- tar. Mas se eu evocar um cenário para o qual é preciso se preparar, mesmo que não seja o que coloco em primeiro plano, evidentemen- te diria que é preciso ter em mente que a his- tória nos mostra que, às vezes, essas coisas são aceleradas por besteiras.

Valor: A crise vai acelerar a passagem do prote- cionismo comercial ao que o senhor denomina “pre- caucionismo”. O que representa essa mudança?

Lamy: Há duas explicações para o que cons- tatamos nos obstáculos às trocas comerciais mundiais: a primeira é a vontade de proteger os produtores da concorrência estrangeira, o pro- tecionismo, e a segunda é a vontade de proteger as pessoas do risco, o “precaucionismo”. Histo- ricamente, o protecionismo está em uma fase de declínio irremediável, com a forte redução das tarifas alfandegárias nas últimas décadas. Já o “precaucionismo” está se expandindo e será acelerado nessa pandemia. Com a melhoria do nível de vida, as pessoas vivem mais e a gestão dos riscos aos quais elas são confrontadas tor- na-se mais importante. O “precaucionismo” é bem mais complicado do que o protecionismo porque são medidas muito diversas, que vão de regulamentações, processos de certificação a normas públicas e de empresas. Como trata-se de gestão do risco, que é uma escala que vai do bem ao mal, é algo subjetivo. Ele não é o mesmo para um francês ou um vietnamita. A solução não está na diminuição do número de medidas, mas na redução das diferenças entre medidas desse tipo. É isso que é difícil.

Valor: O “precaucionismo” tornaria mais difíceis as exportações de países emergentes, como o Brasil?

Lamy: Com certeza. Mas o Brasil é um país que sabe produzir, no setor agroalimentar, produtos de acordo com os padrões americanos e europeus. Não é o caso de outros países. Os pro- dutores brasileiros de frango se adaptaram às normas europeias há cerca de 20 anos.

Valor: Como o senhor interpreta a saída ante- cipada de Roberto Azevêdo da direção-geral da OMC? Uma reforma da organização é possível?

Lamy: Não vou comentar a saída do Azevêdo. Evidentemente, uma reforma da OMC é neces- sária. Isso significa adaptar e renegociar suas re- gras em áreas em que são insuficientes, a come- çar pelo regime de subvenções e de ajudas de Estado, onde o acordo é extremamente fraco. Nos anos pós-covid, o comércio será complica- do porque os Estados vão continuar intervindo de forma maciça nas economias, e isso cria dis- torções na concorrência. A precaução também vai afetar as trocas comerciais. Será preciso, du- rante alguns anos, estabilizar a situação e con- ter os estragos que essa crise terá causado na li- beralização comercial. Só após uma normaliza- ção será possível retomar as negociações para reformar um certo número de regras. E tam- bém de alguns processos de funcionamento da organização, que são medievais. O secretariado da OMC, por exemplo, não pode apresentar propostas, apenas os Estados membros. Isso me parece, no século XXI, totalmente ridículo.

Valor: O acordo Mercosul-União Europeia, aprovado em 2019, tem menos chances de ser ra- tificado em razão da grave recessão prevista na Europa, por conta da pandemia?

Lamy: No curto prazo, não acredito que seja ratificado por razões ligadas à política ambien- tal do Brasil, sobretudo à aplicação efetiva do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas. No momento, devido à política do presidente Bol- sonaro em relação à Amazônia, não deverá ha- ver maioria no Parlamento Europeu para ratifi- car esse acordo. Ele é equilibrado do ponto de vista econômico, mesmo se há produtores eu- ropeus que pensam que não seja o caso. É uma questão mais ideológica.

Valor: O que pensa sobre o governo Bolsonaro?

Lamy: É um governo de extrema-direita, que é perigoso para a democracia e perigoso para a evolução da cultura política no Brasil, que é um país com o qual tive muitos contatos.

Valor: O governo brasileiro aposta na obten- ção de investimentos privados, incluindo estran- geiros, para relançar a economia do país. No con- texto de crise global, os países emergentes podem ainda contar com investimentos estrangeiros?

Lamy: No curto prazo, todas as economias es- tão deterioradas e a retomada vai levar mais tempo do que na crise de 2008. Haverá reestru- turações e recomposições. Não é um período muito favorável aos investimentos. Além disso, os investidores estrangeiros também olham os riscos políticos. Me parece claro que hoje o Bra- sil não está estabilizado no plano político.